Zircônia glazeada ou polida: qual desgasta mais o dente do paciente?
O glaze dá brilho e parece o acabamento mais caprichado. Mas no ponto de contato, quem paga o brilho é o dente do outro lado.
Escrito pela equipe técnica da Prótese Dentária Brasil, laboratório de prótese digital em Americana, SP. Publicado em 6 de outubro de 2026.
A resposta curta
A zircônia polida desgasta o esmalte antagonista menos que a glazeada — e menos até que o próprio esmalte natural.
A cerâmica aplicada é a que mais desgasta: cerca de dez vezes mais que a zircônia polida, no mesmo ensaio.
Em pacientes reais a diferença é menor do que no simulador de mastigação, mas aparece: em 12 meses, o dente oposto à coroa glazeada perdeu cerca de 15% a mais.
O ensaio que todo mundo cita
O estudo de referência sobre o assunto saiu da Universidade do Alabama em Birmingham, em 2013. Os pesquisadores colocaram cúspides de esmalte natural para mastigar contra cinco superfícies diferentes num simulador, e mediram quanto de esmalte sumiu depois de 400 mil ciclos.
| Superfície contra o esmalte | Esmalte perdido | Comparado à polida |
|---|---|---|
| Zircônia polida | 0,21 mm³ | referência |
| Esmalte natural | 0,49 mm³ | 2,3 vezes |
| Zircônia polida e depois glazeada | 0,88 mm³ | 4,2 vezes |
| Zircônia glazeada | 1,18 mm³ | 5,6 vezes |
| Cerâmica de cobertura | 2,15 mm³ | 10,2 vezes |
Três coisas saltam da tabela. A zircônia polida foi gentil com o antagonista, mais até que um dente natural contra outro. Bastou cobrir a mesma zircônia com glaze para o desgaste multiplicar. E a cerâmica de cobertura, a que é aplicada em camadas sobre a infraestrutura, ficou no topo.
A explicação está na rugosidade. A zircônia polida tinha superfície de 0,17 µm; a glazeada, 0,76 µm; a cerâmica de cobertura, 1,60 µm. Superfície mais áspera funciona como lixa.
Mas o glaze não é liso?
Quando sai do forno, é. O problema é o que acontece depois.
O glaze é uma camada fina de vidro sobre a zircônia, e vidro é bem mais mole que zircônia. Nos pontos de contato a mastigação vai gastando essa camada, e o que aparece por baixo não é a zircônia polida: é a superfície que estava ali antes do glaze, sem o polimento que a deixaria lisa. As revisões sobre o tema chegam à mesma conclusão, de que o polimento leva a menos desgaste do esmalte do que o glaze, justamente porque o glaze se deteriora com o uso.
Fora dos pontos de contato, nas faces livres, o glaze não é atritado do mesmo jeito. O problema dele é localizado: é onde o dente do outro lado encosta.
E na boca, a diferença existe?
Simulador de mastigação exagera, e é justo perguntar se isso se confirma no paciente. Um estudo clínico de 2023 fez a comparação mais limpa possível: 30 pacientes, cada um com duas coroas de zircônia monolítica em primeiros molares, uma glazeada de um lado e uma polida do outro. Mesmo paciente, mesma mastigação.
| Desgaste do esmalte antagonista | 6 meses | 12 meses |
|---|---|---|
| Contra zircônia glazeada | 42,80 µm | 81,87 µm |
| Contra zircônia polida | 42,50 µm | 71,43 µm |
Aos 6 meses, empate. Aos 12, a glazeada passou na frente, com diferença estatisticamente significativa. É o desenho que se espera se o glaze for sendo gasto nos contatos: enquanto ele está inteiro, se comporta bem; depois, a superfície de baixo começa a trabalhar.
É honesto dizer o tamanho da coisa: na clínica a diferença é de cerca de 15% em um ano, não de cinco vezes. Não é motivo para pânico com as coroas glazeadas que já estão em boca. É motivo para escolher o acabamento certo nas próximas.
O pedido de "bastante brilho" é comum, e o glaze é o caminho mais rápido para dar brilho. Por isso a decisão precisa ser consciente, e não um hábito.
Nos pontos de contato oclusal, polimento. É onde a evidência é mais clara. O brilho vem do polimento bem feito, sem a camada de vidro que se desgasta.
O ajuste na boca é o momento crítico. Zircônia desgastada com broca fica áspera, e é exatamente a superfície que mais desgasta o antagonista. Ajustou a oclusão na cadeira? Repolir a região antes de cimentar. Um estudo de 2025 com endocrowns acompanhadas por dois anos mostrou desgaste mínimo tanto com glaze quanto com polimento intraoral, o que confirma que o polimento feito no consultório dá conta.
E a cerâmica aplicada?
A linha de baixo da tabela merece atenção. A cerâmica de cobertura desgastou o esmalte cerca de dez vezes mais que a zircônia polida. É um dos argumentos a favor da zircônia monolítica nos dentes posteriores, onde a estética da estratificação pesa menos e a carga mastigatória pesa mais, principalmente em paciente com bruxismo.
Nos anteriores a conversa é outra, e a escolha de material passa por estética e espessura. Falamos disso no artigo sobre dissilicato ou zircônia para faceta.
E a gengiva?
Circula a ideia de que a parte da coroa em contato com a gengiva deve ser polida, e não glazeada. Faz sentido intuitivo, mas a evidência que encontramos é mista e vem só de testes com células em cultura, fora da boca: um estudo favorece o polido na adesão de células da gengiva, outro mostra o glaze com mais viabilidade celular. Por enquanto, não há base para afirmar que um é melhor que o outro nessa região, e preferimos não vender certeza onde não existe.
O que pedimos, na prática
Em coroa posterior de zircônia monolítica, prefira polido nos contatos. Se quiser glaze para a estética, ele pode ficar nas faces livres.
Ajustou na boca, repoliu. Zircônia ajustada e deixada áspera é a pior combinação para o dente do outro lado.
Paciente com bruxismo ou antagonista natural íntegro: é o caso em que a escolha do acabamento mais pesa. Escreva no pedido.
Não tem preferência? Deixe a decisão com o técnico, mas conte como é a oclusão do paciente. É isso que define o acabamento.
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Mandar um caso para nós
Quer polido, glazeado ou um de cada lado? Escreva no campo de observações do pedido. Se não souber qual escolher, conte como é a oclusão do paciente que o técnico responsável sugere antes de começar.
Fazer meu pedido pelo appFontes
- Janyavula S, Lawson N, Cakir D, Beck P, Ramp LC, Burgess JO. The wear of polished and glazed zirconia against enamel. The Journal of Prosthetic Dentistry. 2013;109(1):22-29. PubMed
- Dondani JR, Pardeshi V, Gangurde A, Shaikh A, Mahule A, Deval P. Comparative Evaluation of Wear of Natural Enamel Antagonist Against Glazed Monolithic Zirconia Crowns and Polished Monolithic Zirconia Crowns: An In Vivo Study. The International Journal of Prosthodontics. 2023;36(3):273-281. PubMed
- Ghaffari T, et al. Revisão de 16 estudos sobre o desgaste do esmalte antagonista frente à zircônia polida e glazeada. Dental Research Journal. 2022.
- Solá-Ruíz MF, et al. Meta-análise clínica do desgaste do antagonista frente à zircônia monolítica. Journal of Clinical Medicine. 2020.
- Badawy R, et al. Endocrowns com glaze ou polimento intraoral, acompanhamento de dois anos. Journal of Esthetic and Restorative Dentistry. 2025.