Preparo vertical, ou BOPT
No preparo vertical não existe linha de término. Isso não é um detalhe de técnica: significa que quem decide onde a margem da coroa vai ficar deixa de ser a sua broca e passa a ser o nosso técnico.
Escrito pela equipe técnica da Prótese Dentária Brasil, laboratório de prótese digital em Americana, SP. Publicado em 29 de setembro de 2026.
A resposta curta
Contra o chanfro, a evidência dá empate. Sobrevivência e saúde periodontal sem diferença estatística, em duas revisões sistemáticas.
O que decide não é a geometria, é onde a margem precisa ficar. Subgengival favorece o vertical; supra ou justagengival favorece o chanfro.
Se você prepara em vertical, o provisório deixa de ser provisório. É ele que nos ensina onde a margem vai.
O que é, sem rodeio
No preparo horizontal — chanfro, ombro — a broca deixa um degrau. Esse degrau é a margem. O técnico lê o degrau e para ali. Não existe decisão a tomar: o dentista já tomou, com a broca.
No preparo vertical a broca não deixa degrau. O dente termina em lâmina de faca e o sulco fica livre. A margem da coroa passa a ser onde o técnico decidir colocá-la.
É daí que vem o apelido de "preparo sem término". E é daí que vem tudo o mais, o bom e o ruim.
A evidência: empate, de novo
Uma revisão sistemática com meta-análise de 2023 reuniu oito estudos clínicos, três deles ensaios randomizados, comparando BOPT e chanfro. O resultado foi nenhuma diferença estatisticamente significativa em saúde periodontal nem em taxa de sucesso.
Uma revisão de 2025 foi bem maior: 19 estudos, selecionados entre 837 triados, comparando término vertical e horizontal em restaurações sobre dente.
| Desfecho | Vertical contra horizontal | Significância |
|---|---|---|
| Sobrevivência | RR 0,96 a 1,04 | p = 0,95 |
| Sucesso | RR 0,93 a 1,14 | p = 0,53 |
| Variáveis periodontais | resultados variados, sem preferência clara | |
Os autores encerram dizendo que, não havendo diferença, a escolha pode ficar com a preferência do profissional e com o caso à frente. É uma conclusão honesta e pouco vendável — por isso ela quase nunca aparece no curso.
Onde o vertical parece ganhar, e por que "parece"
Uma revisão narrativa de 2025 juntou o que os acompanhamentos de longo prazo vêm mostrando:
| Vertical (BOPT) | Chanfro ou ombro | |
|---|---|---|
| Espessura gengival | aumento de 0,3 a 0,5 mm em 6 anos | pouca mudança, pode afinar |
| Recessão | menos de 0,2 mm em 6 a 10 anos | 0,3 a 0,6 mm em 5 anos |
| Sangramento à sondagem | cerca de 12% em 4 anos | acima de 25% em 2 a 3 anos, com margem subgengival |
A tendência é boa. Mas os próprios autores fecham o texto dizendo que o BOPT é "promissor, mas ainda não provado", e que faltam ensaios randomizados grandes e longos.
Registramos as duas coisas de propósito. Uma revisão narrativa junta estudos favoráveis sem pesá-los estatisticamente; as duas meta-análises acima, que pesam, deram empate. Quem só mostra a tabela e esconde a ressalva está vendendo, não informando.
A pergunta certa não é "qual é melhor"
Uma revisão sistemática de 2026, com 23 estudos, chegou ao ponto que interessa na cadeira: o que decide não é a geometria do preparo, é onde a margem precisa ficar.
Margem supragengival ou justagengival: o chanfro horizontal é mais conservador e mais previsível. Não há motivo para complicar.
Margem subgengival: aí o vertical mostra a vantagem periodontal, porque não enfia um degrau dentro do sulco.
A mesma revisão registra o custo em estrutura dentária, que vale ter na cabeça antes de escolher: uma coroa total remove de 63% a 72% da estrutura coronária. Uma faceta, de 3% a 30%.
O que ninguém te conta: no vertical, quem desenha a margem somos nós
Este é o ponto do artigo, e ele é pouco dito porque é incômodo dos dois lados.
No chanfro, o degrau é uma ordem: a coroa termina aqui. No vertical não existe ordem — existe um espaço vazio.
Alguém precisa decidir a que altura a cerâmica vai morrer dentro do sulco, e com que contorno ela sobe até encontrar a gengiva. Esse alguém é o técnico, aqui na bancada, olhando um modelo.
É liberdade e é risco pelo mesmo motivo. Com informação boa, o vertical deixa a gengiva desenhar em volta de um perfil que nós escolhemos. Sem informação, nós inventamos — e inventar contorno gengival é como a peça volta.
O que pedimos, na prática
Escreva no pedido que o preparo é vertical. Parece óbvio e é o que mais falta. Um preparo vertical que chega sem aviso pode ser lido como um chanfro mal definido, e aí o técnico procura um degrau que não existe.
Escaneie o sulco, não só o dente. No vertical a informação que interessa está dentro do sulco: é ela que mostra até onde há espaço. Vale o que já escrevemos sobre fio afastador e sangramento — aqui vale em dobro.
Mande o provisório. No vertical ele não é um tapa-buraco até a peça ficar pronta: é o que condiciona o tecido e o que registra o perfil que deu certo na boca. Um escaneamento do provisório em posição vale mais para nós do que qualquer descrição por escrito.
Diga até onde quer a margem. Se você tem uma altura em mente, escreva. É a única forma de a decisão continuar sendo sua.
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Mandar um caso para nós
Caso em preparo vertical, marque no campo de observações do app. O técnico responsável confere o sulco e o provisório antes de desenhar o perfil — e, se o que chegou não for suficiente, falamos com você antes de fresar, não depois.
Fazer meu pedido pelo appFontes
- Al-Haddad A, et al. Biological oriented preparation technique (BOPT) for tooth preparation: A systematic review and meta-analysis. Saudi Dental Journal. 2023. Texto
- Vertical Versus Horizontal Finishing Lines for Dental Preparations: A Systematic Review With Meta-Analysis. Journal of Esthetic and Restorative Dentistry. 2025. PubMed
- Hajaj T, Rominu M, Constantin GD, et al. Influence of Marginal Tooth Preparation Designs on Periodontal Health and Long-Term Stability: A Narrative Review. Journal of Clinical Medicine. 2025;14(19):7038. Texto completo
- Florescu ML, Arrien-Barrenetxea G, Fiorillo L, et al. Preservation of Dental Structure in Prosthetic Restorations: Vertical and Horizontal Preparation Techniques. Systematic Review. Clinical and Experimental Dental Research. 2026;12(2):e70360. Texto completo