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Como escolher a cor?

É a etapa que mais volta para refazer, e quase nunca por causa da cerâmica. A cor se perde antes: no minuto errado, na luz errada, e numa letra que viaja sozinha até a bancada.

Escrito pela equipe técnica da Prótese Dentária Brasil, laboratório de prótese digital em Americana, SP. Publicado em 22 de setembro de 2026.

A resposta curta

Escolha nos três primeiros minutos, antes do afastador, do isolamento e do preparo.

Escolha na luz certa: luz natural perto da janela, entre 10h e 15h, sem sol batendo direto. Sem uma janela boa, lâmpada de 5.500 K a 6.500 K com IRC acima de 90 — nunca sob o refletor.

Mande foto. A letra da escala é o dado mais pobre que chega até nós, e costuma ser o único.

O relógio já está correndo quando você pega a escala

O dente desidrata, e desidrata muito mais rápido do que parece.

Um estudo clínico de 2025 acompanhou 30 pacientes e mediu a cor do dente durante o isolamento, em seis momentos. A diferença de cor é medida pela fórmula CIEDE2000, a escala em que 0,8 é o limite do que o olho percebe e 1,8 o limite do que o olho aceita — dois números definidos em um estudo multicêntrico que virou referência na área.

Dente isolado háDiferença de corO que significa
3 minutos0,78ninguém percebe
5 minutos1,43já se percebe, ainda se aceita
15 minutos3,01fora do aceitável

Em quinze minutos de campo isolado a cor saiu do lugar quase duas vezes acima do limite de aceitação. Não é sutileza de laboratório: é visível a olho nu.

E a volta é pior que a ida. Medida 24 horas depois, a cor tinha retornado ao imperceptível em 70% dos dentes. Nos outros 30%, não tinha voltado.

Da nossa bancada

A conta é simples e ela anda sempre para o mesmo lado: o dente desidratado fica mais claro do que ele é.

Quem escolhe a cor depois do preparo está comparando com um dente que clareou — e vai escolher uma cor mais clara do que deveria. Dias depois o vizinho reidrata, escurece de volta, e a peça que saiu idêntica à escala fica branca demais ao lado dele. A cerâmica não mudou. O dente do lado é que voltou ao normal.

É por isso que a cor é a primeira coisa da consulta, e não a última.

A luz do consultório não é a luz da cor

Cor é luz refletida. Trocar a luz é trocar a cor, e isso não é figura de linguagem: é a razão de duas peças iguais na escala parecerem diferentes quando o paciente sai na calçada.

A referência para escolher cor fica entre 5.500 K e 6.500 K, com índice de reprodução de cor (IRC) acima de 90.

Um levantamento mediu com espectrofotômetro a luz ambiente de 32 consultórios particulares. A temperatura média foi de 4.152,9 K contra os 5.500 K de referência, com diferença estatisticamente significativa, e o IRC médio ficou abaixo de 90. A conclusão dos autores foi direta: a luz da maioria dos consultórios medidos não servia para escolher cor a olho.

Vale medir a sua. É um problema barato de corrigir e caro de ignorar.

A que horas você escolhe a cor também conta

"Luz natural" não é uma coisa só. A luz do dia muda de temperatura ao longo do dia, e muda bastante.

De manhã cedo e no fim da tarde, com o sol baixo, a atmosfera espalha o azul e sobra o vermelho: a luz cai para a faixa de 4.500 a 5.000 K, mais quente. Com o sol alto, ela sobe para perto de 5.600 K, que é justamente a faixa de referência.

Na prática isso abre uma janela de horário: entre 10h e 15h, com o miolo entre 11h e 14h. Às 16h ou 17h a luz já está esquentando e puxa a sua escolha para o lado amarelo.

Dois extremos que também não servem: sol batendo direto, que estoura o brilho e apaga a translucidez, e sombra aberta sob céu azul, que passa de 10.000 K e deixa tudo azulado. O que você quer é luz de janela, difusa, sem sol direto.

Um detalhe que os textos estrangeiros erram no Brasil

A recomendação clássica é "escolha na janela voltada para o norte". Ela está certa — no hemisfério norte, onde o sol cruza o céu pelo lado sul e a janela norte nunca pega sol direto.

Aqui é o contrário. Em Americana o sol passa pelo lado norte quase o ano todo, então a janela que dá luz difusa constante é a voltada para o sul.

Se não quiser pensar em orientação, use a regra que não erra: a janela onde o sol nunca bate direto.

O olho puxa para o A

Este é o dado mais desconfortável da literatura sobre cor, e vem com amostra grande o bastante para não ser coincidência.

Um estudo clínico de 2024 mediu 2.768 dentes naturais de 294 pacientes, comparando a escolha visual com a leitura do espectrofotômetro:

FamíliaEscolha a olhoEspectrofotômetro
A44%13%
B40%53%
C11%22%
D5%13%

Olhando, quase metade dos dentes foi parar na família A. Medindo, a família A explicava 13% deles — e a maioria era B.

Não é falta de atenção de ninguém. É como o olho lida com matiz quando existe cor forte em volta: gengiva, lábio, batom, o babador, a parede da sala.

Sorriso com facetas cerâmicas em close, com batom vermelho intenso ao redor
Tudo que está em volta entra na conta. O batom, a gengiva e a cor do babador deslocam a percepção do matiz antes de a escala encostar no dente.

O aparelho ajuda, mas não existe botão que resolva cor

Aqui a literatura é bem menos animadora do que a propaganda.

Uma revisão sistemática de 2022 reuniu 13 estudos comparando escolha visual e métodos instrumentais. A fotografia digital reduziu a diferença de cor de forma clara. Já o espectrofotômetro não mostrou vantagem sobre a escala visual na diferença de cor final. Onde ele ganhou foi em outra coisa: errar menos a escolha da escala, e repetir o mesmo resultado quando se mede de novo.

Um estudo de 2025 foi mais fundo. Testou 48 observadores — professores, pós-graduandos, alunos e técnicos de laboratório — com foto comum, foto com polarização cruzada, scanner intraoral e espectrofotômetro. Três resultados merecem atenção:

Nenhuma técnica alcançou o limite de aceitabilidade de 1,8 nessa mesma escala. Nenhuma delas.

A polarização cruzada não foi superior à foto comum para acertar a cor, ao contrário do que se repete por aí.

O scanner intraoral não serve para cor. A concordância com o espectrofotômetro ficou em kappa 0,10, sem significância. Ele lê geometria muito bem, e isso não o transforma em colorímetro.

Registramos esses números porque eles contrariam o outro estudo citado aqui, que chama a polarização de ferramenta essencial. Os dois são recentes, os dois foram publicados, e a divergência é real — não vamos esconder uma das pontas para deixar a recomendação mais redonda.

Da nossa bancada

Tem um detalhe nesse estudo que nos interessa de perto: os técnicos de laboratório acertaram tanto quanto os professores, e os dois grupos acertaram mais que os alunos. Cor é repetição, não título. Quem olha dente o dia inteiro enxerga o que quem olha de vez em quando não enxerga.

É também o motivo de preferirmos receber informação demais a informação de menos.

Por que pedimos foto, e não só a letra

A letra da escala é um ponto. O dente é um degradê.

Trabalhamos principalmente com a VITA Classical, a das famílias A, B, C e D — a mesma da tabela acima. Se você usa a 3D-Master, mande a referência assim mesmo e a gente converte aqui.

Vista lateral de facetas cerâmicas mostrando a translucidez da borda incisal
Nada disso cabe numa letra: o cinza da translucidez incisal, o halo na borda, o corpo mais saturado no terço cervical. É o que a foto carrega e o nome da cor não.
Da nossa bancada — como mandar a foto

A escala encostada no dente. O motivo é foco, antes de ser luz: se a escala fica à frente ou atrás do dente, uma das duas sai desfocada, e aí não dá para comparar textura nem borda.

O mesmo enquadramento duas vezes: uma foto com a escala do lado, uma sem.

Luz natural de janela, no horário de mais luz, sem sol direto e sem flash apontado de frente. O brilho estourado apaga justamente o que interessa, que é a translucidez da borda.

Diga se quer o bloco mais translúcido ou mais opaco. Essa é a escolha que a gente precisa fazer aqui e que a letra não carrega. Mais translúcido acompanha melhor o dente natural; mais opaco esconde substrato escuro e não deixa a peça acinzentar.

Da nossa bancada — por que insistimos tanto nisso

Não vamos ver o seu paciente. Não temos espectrofotômetro, e a maioria dos nossos clientes é de outra cidade — o caso vai e volta de Sedex.

Tirar a cor aqui é último recurso, e só acontece quando o paciente consegue vir até Americana. Na prática, isso quase nunca é possível.

Então a sua foto não é um anexo: ela é o único olho que a bancada tem nesse caso. É por isso que insistimos em janela, horário e escala encostada, coisas que parecem excesso de zelo e são a diferença entre acertar e refazer.

O que pedimos, na prática

Cor antes do preparo, nos primeiros minutos da consulta, com o dente hidratado.

Na luz certa: janela sem sol direto, entre 10h e 15h. Sem janela boa, lâmpada de 5.500 K a 6.500 K com IRC acima de 90.

Batom e babador colorido fora de cena antes de comparar.

Olhadas curtas. Olhar fixo cansa o olho e desloca a percepção; é melhor comparar em várias olhadas rápidas do que em uma longa.

Foto junto do pedido, anexada no app com o caso.

Diga translúcido ou opaco no campo de observações. É a escolha que a letra não carrega.

Na dúvida entre duas cores, mande as duas fotos e diga para que lado você prefere errar.

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Fio afastador para escanear Em cerca de 40% dos casos que recebemos não dá para ver o limite do preparo. E o sulco fecha sozinho em 40 segundos. Preparo vertical (BOPT) Sem linha de término, quem decide onde a margem da coroa fica é o laboratório. Duas meta-análises dão empate contra o chanfro. Dissilicato ou zircônia para faceta? O que a meta-análise de 7.753 facetas mostra, e por que um implante no meio do caso muda o material.

Mandar um caso para nós

As fotos de cor vão anexadas ao pedido no app, junto do caso. Se a cor for crítica — um único central, por exemplo — escreva isso no campo de observações: o técnico responsável olha antes de começar.

Fazer meu pedido pelo app

Fontes

  1. Hacıalı C, Korkut B, Yanikoglu F. Clinical assessment of dental color during dehydration and rehydration by various dental photography techniques. Odontology. 2025;113(4):1558-1572. doi:10.1007/s10266-025-01081-w
  2. Paravina RD, Pérez MM, Ghinea R. Color difference thresholds in dentistry. Journal of Esthetic and Restorative Dentistry. 2015;27(Suppl 1):S1-S9. doi:10.1111/jerd.12149
  3. Wee AG, Meyer A, Wu WD, Wichman CS. Lighting conditions used during visual shade matching in private dental offices. The Journal of Prosthetic Dentistry. 2016;115(4):469-474. PubMed
  4. Alvarado-Lorenzo A, Criado-Pérez L, Cano-Rosás M, et al. Clinical Comparative Study of Shade Measurement Using Two Methods: Dental Guides and Spectrophotometry. Biomedicines. 2024;12(4):825. Texto completo
  5. Hardan L, Bourgi R, Cuevas-Suárez CE, et al. Novel Trends in Dental Color Match Using Different Shade Selection Methods: A Systematic Review and Meta-Analysis. Materials (Basel). 2022;15(2):468. Texto completo
  6. Saygılı S, Albayrak B, Sülün T. Effect of different instrumental techniques and clinical experience on shade matching. Journal of Prosthodontics. 2025;34(6):609-616. doi:10.1111/jopr.13894
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