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Dissilicato ou zircônia para faceta?

A literatura responde uma parte da pergunta. A outra parte só aparece na bancada, quando o caso chega com um implante no meio e quatro dentes para casar a cor.

Escrito pela equipe técnica da Prótese Dentária Brasil, laboratório de prótese digital em Americana, SP. Publicado em 21 de setembro de 2026.

A resposta curta

Para faceta isolada, o dissilicato de lítio é o material com evidência clínica de longo prazo: 96,81% de sobrevida em 10,4 anos. A zircônia aparece com 100%, mas em 2,6 anos e com um único estudo — ainda não há lastro de uma década.

Para caso misto na zona estética, em que a mesma frente reúne faceta, coroa e prótese sobre implante, nós indicamos zircônia nas quatro unidades. O motivo não é resistência: é que unificar o material é o que torna a cor possível de bater.

O que a evidência mostra

A revisão mais completa até aqui reuniu 29 estudos clínicos e 7.753 facetas em 986 pacientes, com acompanhamento de 1 a 20,7 anos. Os números de sobrevida por material, no longo prazo:

MaterialSobrevidaAcompanhamentoComplicações técnicas
Dissilicato de lítio96,81%10,4 anos6,1%
Feldspática96,13%10,4 anos41,48%
Reforçada por leucita93,7%10,4 anos29,87%
Zircônia100%2,6 anossem dado de longo prazo

Repare na quarta coluna, que costuma passar despercebida. A feldspática tem sobrevida parecida com a do dissilicato, mas 41,48% de complicações técnicas contra 6,1%. Sobreviver não é o mesmo que não dar trabalho: fenda marginal e alteração de cor não arrancam a peça, só obrigam a refazer o acabamento e explicar ao paciente.

No dissilicato, as complicações estéticas em 10,4 anos ficaram em 1,9% e as biológicas em 0,45%. É o conjunto mais equilibrado que a literatura tem hoje para faceta.

Sobre a zircônia, os autores são explícitos: só havia um estudo de curto prazo, e o desempenho de longo prazo permanece incerto. Isso não é um defeito do material — é ausência de tempo.

Por que a zircônia parece mais viva

Quem trabalha com os dois materiais na mão percebe que a zircônia devolve mais luz. Isso não é impressão: foi medido.

Um estudo que comparou zircônia monolítica e dissilicato registrou reflexão de luz significativamente maior na zircônia em todas as etapas do experimento — no início, depois de dois kits de maquiagem externa e depois da termociclagem, com p = 0,005 em cada comparação.

Ao mesmo tempo, outro estudo com 60 facetas em 0,5, 0,7 e 1,0 mm mediu translucidez significativamente menor na zircônia que no dissilicato.

As duas coisas juntas explicam o efeito: a zircônia deixa passar menos luz e devolve mais. O dissilicato faz o contrário, e por isso se integra melhor quando o dente vizinho é natural e translúcido.

Facetas em dissilicato nos dentes anteriores, detalhe aproximado
Facetas em dissilicato: a translucidez maior é o que permite o dente acompanhar o vizinho natural.

O que a literatura mede e o que a bancada corrige

Aquele estudo das 60 facetas encontrou algo que, lido sozinho, assustaria qualquer dentista: variar a espessura de 0,5 a 1,0 mm mudou a cor percebida de forma distinta na zircônia, enquanto no dissilicato a diferença ficou perto ou abaixo do limiar de percepção.

A conclusão óbvia seria: com zircônia, preparo irregular vira cor irregular. Na prática, não é o que acontece aqui.

Da nossa bancada

Esse efeito não aparece nos nossos casos porque aplicamos massa opaca internamente. A camada opaca interrompe a influência do que está embaixo e da variação de espessura, e a cor passa a ser definida pelo que construímos por cima, não pelo preparo.

Vale saber o que o estudo mediu: corpos de prova de cerâmica, sem essa camada. É um dado correto que descreve o material isolado, não o trabalho pronto.

Essa distinção importa para quem lê artigo e atende paciente. O laboratório existe, em boa parte, para neutralizar variáveis que o estudo isola de propósito.

Quando indicamos zircônia

O caso típico: faceta no 11, prótese sobre implante no 21, coroas no 12 e no 22. Quatro unidades vizinhas, na frente do sorriso, com três substratos diferentes por baixo — dente preparado, pilar de implante e dente com coroa total.

A literatura de estética descreve casar cor entre substratos distintos como um dos problemas mais difíceis da área, e o implante piora a conta: o pilar muda o que chega por trás da cerâmica, e um pilar metálico pode lançar sombra acinzentada.

Da nossa bancada

Nesses casos usamos zircônia nas quatro unidades. Com o mesmo material e o mesmo comportamento óptico em todas, a cor passa a ser um problema só de construção, e não uma disputa entre cerâmicas que respondem à luz de maneiras diferentes.

Somando o efeito da reflexão maior, o resultado fica, na nossa opinião, mais bonito nesse tipo de caso.

Facetas e coroas cerâmicas montadas sobre o modelo de trabalho
Caso com unidades diferentes na mesma frente: unificar o material é o que torna a cor previsível.

Espessura mínima

Trabalhamos a partir de 0,3 mm. Abaixo disso, a peça deixa de ter cerâmica suficiente para sustentar cor e forma, e o risco passa para o momento da prova.

Vale lembrar que o estudo de translucidez testou 0,5, 0,7 e 1,0 mm. Abaixo de 0,5 mm a literatura é mais escassa, e a decisão sai do artigo e volta para a conversa entre dentista e técnico, caso a caso.

Resumindo

Faceta isolada, dente vizinho natural, paciente que quer integração: dissilicato, que é o material com dez anos de estrada documentada.

Frente com implante, coroa e faceta juntos: zircônia nas quatro, para a cor ter chance de fechar.

Em qualquer um dos dois, o que decide o resultado é o que chega até nós: preparo com espessura suficiente, cor registrada com o dente hidratado e uma foto do sorriso. O material é a parte fácil.

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Fontes

  1. Klein P, Spitznagel FA, Zembic A, et al. Survival and Complication Rates of Feldspathic, Leucite-Reinforced, Lithium Disilicate and Zirconia Ceramic Laminate Veneers: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Esthetic and Restorative Dentistry. 2024;37(3):601-619. Texto completo
  2. The Light Reflection Changes of Monolithic Zirconia and Lithium Disilicate after Using Two External Staining Kits following by Thermocycling. Materials. 2023;16(5):2057. Texto completo
  3. A comparative study of translucency and color perception in monolithic zirconia and lithium disilicate veneers. Heliyon. 2023. Texto completo
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